quarta-feira, 30 de julho de 2008

Cátaros - Aurora da Maçonaria?

por Carlos Alberto Carvalho Pires

A-Introdução
Na idade das trevas, quando o espírito repressor de quem detém o poder podia atingir limites inimagináveis , uma terrível cruzada irrompeu no sul da Europa . As vítimas foram membros de um pequeno grupo religioso , chamados “Cátaros” ou “Hereges” . Tal movimento, cuja origem e evolução ainda não foram satisfatoriamente explicadas , deixou como legado um grande exemplo de luta e coragem , raramente visto em outros momentos .
Vamos realizar, ao longo deste trabalho , três viagens no tempo . Voltaremos nossa imaginação até o final do século XII e início do XIII, em uma área situada ao sul da atual França. Chamada de “Ocitânia” , era limitada pelos Pirineus e Mediterrâneo , ficando entre o reino de Toulouse e a casa de Aragão , na Espanha . Esta região , de grande beleza natural , era povoada por uma comunidade feliz , tranqüila e extremamente avançada para a época , em termos de bem estar e harmonia social . Havia riqueza abundante e fartura material , raras na Europa medieval. Em termos políticos era uma oásis de liberdade, pois se tratava de um território praticamente independente de qualquer poder central. O domínio papal era quase imperceptível, sem grande influência no destino de senhores e servos.
Tudo caminhava em paz , até que a cobiça , ganância e a megalomania de alguns acabaram com este paraíso na Terra. Aproveitando a existência de um movimento fundamentalista cristão que se ali prosperava, uma triste demonstração da mais agressiva crueldade humana foi colocada em prática . Esta nova corrente religiosa, criada a margem do poder eclesiástico, foi chamada posteriormente de “Catarismo” . Então, com máscara de guerra santa , foi colocada em marcha aquela que seria a maior carnificina de cristãos no mundo ocidental. Uma Cruzada terrível e sangrenta foi desencadeada pela Igreja, contra seus irmãos de fé. Disfarçados de defensores de Deus, os algozes na verdade queriam a incorporação política da região ao reino da França, além de garantir o Catolicismo como religião hegemônica e soberana.
Ao lançarmos luzes sobre os meandros que envolveram este triste capítulo de nossa História ,uma certeza inquestionável nos é apresentada : a ascensão e derrocada dos denominados “hereges” foi um fenômeno extremamente significativo para nossos IIR do passado . Isto porque os ideais que ainda hoje apregoamos em nossas SS , a cada reunião semanal - tais como liberdade , igualdade e fraternidade - tem relação direta com os eventos aqui tratados . Se mesclam os fundamentos doutrinários de nossa Ordem e vários conceitos relativos a este pequeno grupo de religiosos . Portanto , ao estudarmos este assunto , estamos estudando o próprio fenômeno maçônico .


B – Primeira Viagem : Antecedentes

A Igreja de São Pedro surgiu por volta do século I na região da Palestina, como uma derivação do Judaísmo. Rapidamente se espalhou por todo Oriente Médio e demais áreas do Império Romano, como Ásia e norte da África. Em cada região a mensagem de Jesus era ligeiramente adaptada às crenças e tradições locais.
Nas diversas comunidades em que a nova religião começava a aflorar, a hierarquia e administração eram relativamente independentes umas das outras, mas sempre era possível observar a influência de Roma sobre todas. Após a legalização do Cristianismo realizada por Flavius Marcellus Constantino I, por volta do ano 320 d.C., a pressão sobre os grupos chamados não-cristãos passou a ser exercida de forma severa, com perseguições, destruição de sítios e demolição moral dos símbolos das seitas concorrentes.
Com a divisão do Império Romano em duas partes, o comando religioso também se dividiu, mantendo um líder em Roma chamado de “Bispo” e outro em Constantinopla ,conhecido como “Patriarca” . A língua oficial do Império Romano do Ocidente era o latim, e da porção oriental o Grego, utilizado para transcrever os primeiros textos contendo os ensinamentos cristãos. Nesta fase, a então seita emergente passou por um processo de expansão extraordinário.
No início, a doutrina cristã era parte fundamental da luta das minorias contra o poder estabelecido , almejando a quebra do “status quo” dominante. Este perfil se alterou em um período relativamente breve de tempo. Ao longo dos anos cresceu vertiginosamente entre as classes populares , pois apregoava a igualdade de todos perante Deus – inclusive mulheres e escravos . Também alcançava as castas mais nobres, que apresentavam um comportamento extravagante , prometendo a salvação eterna através única e exclusivamente da aceitação dos dogmas apregoados. Com a entrada das elites na nova ordem, e com o enriquecimento da cúpula , o movimento se tranformou : de instrumento de combate à hegemonia dos mais fortes , tornou-se ele próprio um agente de dominação da população .
A tomada dos locais sagrados do paganismo e a subseqüente instalação de sacerdotes cristãos exatamente nos mesmos templos fazia parte da política de abafamento às crenças locais . Para satisfazer as necessidades do povo, que se acostumara a freqüentar as sessões ritualísticas antigas, os líderes cristãos utilizaram uma velha estratégia : incorporaram os mitos, símbolos , paramentos e ritualísticas dos cultos esmagados , transformando-os em “tradições” católicas . Este modus operandi fez muito sucesso no passado .Exemplo clássico destas absorções é o culto à Mitra , da antiga Pérsia , que se tranformou numa festa romana , comemorada na época do solstício de inverno - natalis sol invictus . Em seguida, veio o Cristianismo e transformou a homenagem romana ao nascimento do Sol no dia de nascimento de Cristo , extinguindo totalmente o mito primordial .
Entretanto , e a despeito de todo este empenho em fortalecer as novas bases espirituais , após a fase de expansão inicial do século I ao IV , a Igreja sofreu grande risco à sua sobrevivência . Já às portas do século VI tal crise se mostrou como um eminente cataclisma sobre as colunas de São Pedro , Agravaram tal situação os movimentos migratórios em direção à Constantinopla e as invasões bárbaras. Ao mesmo tempo em que se fragmentava o Império Romano , a instituição eclesiástica que crescera ao seu lado também sofria os efeitos deste processo . O Papa exercia sua liderança com visível dificuldade , e o cisma da Igreja já demonstrava a precariedade da unificação espiritual em toda Europa. Importante lembrar que coexistiam várias igrejas distintas , como a Celta e a Grega , que também buscavam fortalecimento notadamente nos rincões mais afastados , onde Roma praticamente não exercia sua influência. Para piorar a situação, a Igreja Ortodoxa de Constantinopla se consolidava juntamente com o fortalecimento do Império Romano do Oriente , que perduraria até meados do século XVI .
Tornava-se evidente que era preciso buscar apoio de uma grande força centralizadora , que pudesse garantir militar e politicamente a unidade territorial do império e a hegemonia das idéias de Cristo sobre todas as seitas que germinavam na vastidão das terras de César . Tal acordo deveria ser suficientemente poderoso para , além de sufocar todas as correntes teológicas concorrentes , garantir a fidelidade cega de todos os súditos aos ditames cristãos.
A salvação do trono de São Pedro se cristalizou na figura de um rei franco , chamado Clóvis . Por volta de 486 d.C. , tal monarca havia anexado vários territórios , reinos e principados, conquistando a posição de mais importante mandatário da Europa em um curto espaço de tempo. Um eventual acordo entre ele e o papado seria altamente benéfico para ambas as partes , pois daria legitimidade espiritual ao conquistador e garantia de manutenção e prevalência do cristianismo sobre todas as outras vertentes religiosas . E assim foi feito . O reino franco se expandiu anexando a maior parte da atual Alemanha , França e territórios adjacentes , e o processo de desintegração da Igreja foi estancado , invertendo-se a tendência de desaparecimento . Apenas a parte sul , chamada à época de Ocitânia , permanecia praticamente independente , sem influência de nenhum poder central. Esta situação de liberdade social , associada a uma inquietação quanto aos exageros e luxos dos representantes papais, favorecia o afloramento de novas idéias , voltadas para um Cristianismo mais fundamentalista, sem ostentação material alguma.

C-Segunda Viagem: Os Cátaros

Em meados do século XII, ao sul da atual França, na região antigamente conhecida como “Occitânia “ e que hoje é denominada “Languedoc” – ambos os termos significando “terra da língua do sim” - surgiu um movimento fundamentalista cristão , pacífico , que via no exemplo de vida de Jesus , humilde e sem luxo algum, a base de sua doutrina . Acima de tudo, a palavra de ordem era humildade - desprezando a soberba, a arrogância e os valores materiais.
Os integrantes deste movimento foram chamados , pelos historiadores eclesiásticos , de “cátaros-hereges” ou simplesmente “cátaros” - derivação de “katharoi” , puro em grego .
Considerado uma heresia pela cúria romana , tal movimento agregava integrantes de todas as classes sociais, sem distinção entre os sexos. Seu crescimento começava a incomodar o papado. ( lembremos que o termo “heresia” deriva do latim haerenses , que por sua vez veio do grego hayreses , que significa “ capacidade de escolher” - toda linha de pensamento que não seguia a risca os ditames de Roma , era considerada herética e passível de excomunhão , como primeira forma de punição espiritual , seguida de sanções físicas ) .
Pregando o retorno ao cristianismo primitivo, desprezavam a intermediação de qualquer instituição terrena nas questões de fé, defendendo a ligação direta dos servos com o Divino . Argumentavam que não se apregoa , em nenhum momento nos evangelhos , a existência da Igreja ou de qualquer autoridade regulatória da espiritualidade das pessoas.
Seus integrantes se dividiam em duas categorias : os leigos , chamados de crentes ( pessoas comuns ) , e os “perfecti” ou “bons homens”, que seriam os pregadores missionários, formadores da hierarquia da igreja cátara . Estes trabalhavam em duplas , visitando as vilas levando sua mensagem. Para este papel era preciso receber uma espécie de ordenação, realizada em cerimônia pública, chamada de consolamentum . Os bons homens viviam em pobreza absoluta , abstinência total e obediência a Deus e aos evangelhos. Os trabalhos eclesiásticos eram muito simples , pdendo ser desenvolvidos em qualquer local . Consistiam de uma leitura breve do evangelho , seguida por um sermão , uma benção e uma oração. Como nos tempos de Jesus, eles diziam.
Os crentes não faziam os votos. Podiam se casar, trabalhar, ter filhos, mas , em seu leito de morte , deveriam receber o consolamentum . Ministrado pelos bons-homens , assegurariam a entrada triunfal de todos no reino dos céus.
Como parte de suas convicções cristãs , negavam que o mundo físico pudesse ser obra divina, rejeitando a versão bíblica da Criação. Pregavam que Deus teria um caráter dúbio, tanto masculino quanto feminino. Deste conceito deriva a igualdade de direitos entre homens e mulheres nos diversos papéis exercidos, inclusive nas posições mais importantes na hierarquia cátara. Afirmavam que existiriam dois deuses , um bom , voltado ao mundo espiritual, e um mau relacionado ao material . Seriam polaridades complementares, uma dicotomia que satisfazia a todos e descontentava a verdade estabelecida. Mas não existiria inferno, pois todas as almas , via consolamentum, se salvam no final
Afirmavam que os desígnios divinos estariam além da capacidade de compreensão dos seres humanos, enquanto seres físicos. O absoluto seria francamente inatingível à experiência humana terrena . Para alguns , nesta colocação já podemos observar alguns princípios das doutrinas de Kant e Humes , estabelecidas apenas no final do século XIX. Também acreditavam na reencarnação das almas.
A salvação viria em seguir o exemplo de Jesus, com uma vida simples, sem luxo nem ostentação, livre de qualquer vaidade relativa ao mundo material.
Portanto, de nada adiantaria a existência de uma igreja como forma de canalização da vontade de Deus em relação às questões seculares – esta talvez fosse a maior das heresias: afirmar que não haveria justificativa para a existência da estrutura eclesiástica. A busca do divino através de experiências místicas diretas, marcada pelo pensamento neoplatônico, era uma das principais características dos cátaros – tal colocação forneceu munição pesada aos futuros acusadores , representantes do papa. Desejavam uma comunhão direta com o Criador, transcendendo o campo pessoal . Para isso teriam que atingir a sabedoria superior , chamada de “Gnose” por muitas comunidades espiritualistas .
Como principal texto doutrinário utilizavam o Evangelho de São João e um outro, chamado de “Evangelho do Amor”. Realizavam obras sociais concretas, ajudando os necessitados de diversas maneiras , pois acreditavam que a fé só seria uma experiência válida se exercida na prática , não permanecendo apenas no campo teórico . Investiam, por exemplo, em campanhas de promoção à saúde e educação, sempre gratuitas . Neste ponto percebemos que a preocupação com a filantropia, tão em voga atualmente , já existia nesta época . Seria uma forma de busca da perfeição com ser humano ,ou de aproximação com o divino.
Exerciam a tolerância religiosa de maneira plena, respeitando todas as vertentes e possibiltando a convivência pacífica entre todos que coabitavam a mesma região. Por não exercerem nenhuma forma de hierarquia , por respeitarem os credos diversos e pela união entre todos , podemos afirmar com certeza que exerciam fielmente os princípios de liberdade , igualdade e fraternidade , bandeiras muitas vezes defendidas por outros movimentos que viriam muito tempo depois deles. Em relação à Arquitetura, deixaram um grande legado . Construiram castelos maravilhosos e abadias grandiosas em regiões de difícil acesso, nos cumes de montanha e perto de precipícios . Além de proteger contra ataques , possibilitava aos fiéis observarem vistas maravilhosas das paisagens , a partir de suas sacadas . Hoje tais obras são famosos pontos de turismo e visitação.
Revestido pelo caráter humanístico, aceitando todos indistintamente e pelo exercício pleno da filantropia , tal movimento crescia vertiginosamente e começava a incomodar as autoridades eclesiásticas .


D- Terceira Viagem : A Cruzada Albigense

Em 1.165 houve a primeira condenação formal a esta doutrina, realizada na cidade de Albi , localizada no Languedoc. Deste fato deriva o termo “Albigense” , utilizado para denominar a cruzada e também o próprio movimento.
Pelo conjunto de idéias em franca disseminação e pelas ações junto às comunidades , os chamados heréticos se tornaram alvo da atenção do papado. Inocêncio III convocou uma Cruzada, conhecida como Albigense , sob a liderança de Simon de Montfort no período de 1.209 a 1.224 , e depois comandada pelo rei Luis VIII , de 1.226 a 1.229 . Foi a primeira realizada para atuar apenas no continente europeu, visando abafar uma ação cristã genuína , diferentemente das cruzadas tradicionais contra mouros e judeus .
Em 1.209 , um contingente de trinta mil cruzados se lançou rumo ao Languedoc, não apenas combatendo os cátaros, mas todos aqueles que se encontravam pela região , inclusive católicos simpatizantes moradores no local.
Na cruzada foram alistados todos os tipos de pessoas , como desajustados, desordeiros e mercenários. A violência contra a população foi extremamente severa e os registros da época nos mostram um horror e uma carnificina sem igual na História Ocidental.
Apenas na cidade de Beziers, em 1.209 , mais de sessenta mil sucumbiram queimados ou esquartejados . Existe a lenda de que , às portas da cidade , os cruzados relutaram por um momento antes do confronto, ao perceberem que haviam muitos católicos e pessoas comuns pela cidade . Mas foram incentivados ao massacre pelo prelado do Vaticano , ali presente, o arcebispo de Narbonne. Arnaud Amury tranqüilizou os atacantes afirmando que matassem todos, “pois Deus iria cuidar dos seus , posteriormente” .
Arrasada a cidade de Beziers, os cruzados marcharam triunfalmente para Carcassone , onde Simon de Montfort se apossou dos condados de Trencavel, Alzonne, Franjeaux , Castres, Mirepox , Pamiera e Albi. Em todos a matança foi massiva e cruel . A área ao redor das cidades de Carcassone e Toulouse foram completamente arrasadas. Muitos eram queimados vivos, em fogueiras coletivas com até quinhentos indivíduos. Mulheres, idosos , crianças e deficientes não eram poupados. O ânimo dos guerreiros papais era estrondoso , pois sabiam que se combatessem fervorosamente por quarenta dias teriam seus pecados perdoados e direitos legítimos aos produtos e riquezas originados dos saques.
Há de se registrar a postura solene e tranqüila da maioria das vítimas ao se encaminharem para o sacrifício , sem lamúrias nem choros, com sua fé inabalável servindo como sustentáculo espiritual neste momento de horror , mesmo quando a única certeza era de queimar lentamente em uma fogueira humana.
Por volta de 1.224 o rei Luis VIII , liderando os barões do norte , empreendeu uma nova cruzada, após a morte de Montfort em 1.218. Esta empreita durou cerca de três anos e chegou até Avignon ,onde terminou o cerco aos hereges. Em 1.229 foi realizado um acordo , conhecido como tratado de Meaux , entre o rei da França e os senhores feudais das áreas conquistadas, passando o domínio completo para a coroa. Terminava oficialmente a guerra.
Em cerca de quarenta anos de massacre , centenas de milhares tombaram sob a espada e fogueira do clero , não se poupando mulheres , crianças e idosos. Os números são variados , pois a única fonte de registro oficial pertence aos arquivos do Vaticano . Alguns autores mencionam 500.000 a um milhão de vítimas, mortos diretamente em combate, ou nas fogueiras , ou agonizando em masmorras subterrâneas.

E- O Legado Histórico

Após arrefecer a fúria cruzada , os sobreviventes passaram a pregar como realmente faziam os primeiros cristãos : em catacumbas, cavernas e nas florestas. Isto porque a cruzada albigense , apesar de sua brutalidade atroz , não fôra suficiente para exterminar todos os indivíduos nem tampouco os ideais cátaros.
O fortalecimento da Igreja Católica e sua hegemonia como “representante único de Deus na Terra” , estavam garantidos no sentido lato , mas ainda haviam reminiscências que deveriam ser resolvidas. A perseguição deveria persistir, mas de forma pontual e inconstante . Não mais seria possível nem interessante empreitar uma nova cruzada. Estava indicado o uso de métodos mais “inteligentes” , sem grande estardalhaço, mas com a mesma crueldade dos anteriores, marcando com sangue a vontade soberana do clero.
Rapidamente a pena papal começava a traçar novas investidas.
Em 1.231 , lançando a bula Excomunicamus , o papa Gregório IX refinava os métodos de obtenção de confissões dos hereges , criando os tribunais que seriam encarregados de tais missões. Chamados genericamente de Tribunal do Santo Ofício , deveriam zelar pela manutenção da fé e pela submissão total aos ditames papais de toda a população .Os que pensassem de forma contrária seriam tratados como hereges, sujeitos a perda dos direitos espirituais e materiais, com risco de perda de propriedades , da liberdade e da própria vida- sua e daqueles que os protegessem . A nova diretriz aproveitava para proibir a manutenção de bíblias nas casas de pessoas comuns.
Em 20 de abril de 1.233 , o mesmo Gregório IX lançou duas bulas que efetivaram as ações do Tribunal do Santo Ofício . Destaca-se a bula Licet et Capiendos , dirigida aos Dominicanos. Determinava que estes seriam os inquisidores , ordenando que não poupassem métodos para obter as confissões . Exigia apoio do poder secular , privando os pecadores dos benefícios espirituais com emissão de censuras eclesiásticas severas. O conjunto de ações direcionadas a inquirir , ou questionar o comportamento dos hereges , ficou conhecido como “Santa Inquisição”, nome que ficou estigmatizado como sinônimo de tortura, horror e irracionalidade .
Por volta de 1.252, o papa Inocêncio IV publicou o documento entitulado Ad Extirpanda , autorizando o uso de tortura física para se obter as confissõs. Além de trazer uma série de orientações aos inquisidores, continha uma frase que resumia bem os ânimos da época : “os hereges devem ser esmagados como serpentes venenosas”.
Em decorrência desta liberação, o mundo vivenciou uma fase negra da História , onde milhares foram torturados das mais diversas maneiras até confessarem seus eventuais “crimes”, mesmo porque ao assumirem a culpa seus bens seguiam diretamente para os cofres do Vaticano . O medo se espalhava nas pequenas comunidades . À chegada das comitivas do Tribunal se seguiam as cenas de mutilações , de dor e sofrimento que culminavam com fogueiras humanas em locais públicos . Os “julgamentos” eram aberrações jurídicas . Simples depoimentos poderiam condenar um suspeito, enquadrando-o por heresia, bruxaria , ou qualquer outro comportamento que não interessasse ao clero . Provas materiais não eram importantes , e institutos como amplo direito de defesa e habeas corpus não existiam .
Estas manifestações tenebrosas de autoritarismo geraram um grande descontentamento em algumas pessoas, livres de pensamento , que não aceitavam este desrespeito fragrante aos direitos humanos. Do campo teórico, partiram para a prática, se reunindo em associações secretas que trabalhavam discretamente em busca destes nobres valores, como integridade física, liberdade e igualdade. Nestas entidades , seria essencial a escolha criteriosa dos membros, para evitar que maus elementos ou espiões se infiltrassem. Os segredos que porventura existissem, deveriam ser garantidos mediante juramentos severos. A fraternidade tinha que ser perfeita entre todos, como se fossem irmãos de sangue. O objetivo seria proteger aqueles que fossem perseguidos pelo estado ou igreja, e aqueles que queriam ter apenas liberdade de pensamento. Portanto , o que transparece destes fatos é que do movimento cátaro , surgiu a perseguição sistemática e sangrenta de todos que ousavam ir contra o status quo. E esta brutalidade, encabeçada pela Santa Inquisição, incentivou o nascimento de diversas sociedades de proteção mútua . Dentre estas poderiam estar as ancestrais de nossa querida Maçonaria? Vamos aos fatos.
Analisando as teorias sobre o surgimento da Maçonaria , vemos que a preocupação com os segredos, o uso de códigos exclusivos e a existência de juramentos pesados podem atestar que somos efeito direto destas políticas terríveis, de perseguição aos que pensam de maneira diferente do poder, ou que lutam pela liberdade , desejando ser livres de pensamento. Qual o objetivo destas posturas, que não vemos em outras instituições ou clubes de serviço? A resposta só pode significar que , no passado , estes cuidados poderiam fazer a diferença entre viver ou morrer na fogueira – daí o rigor das obrigações secretas.
Da perseguição religiosa do século XIII , à publicidade da primeira potência em 1.717 , chegando à atualidade , notamos claramente que existem princípios comuns permeando os momentos históricos. Antes necessários para segurança dos membros, hoje preservados pela tradição e respeito aos tempos de luta.
Para a maioria dos estudiosos , as origens da Maç se dispersam nos registros formais da historiografia . Não temos uma única e definitiva versão deste processo, notadamente em relação ao local e data precisas do surgimento da primeira oficina.
Os dados oficiais , em grande parte , se perderam ao longo do tempo. Certamente , devido à perseguição visceral sofrida , os antigos IIR se viam obrigados a , massiva e eficientemente , destruirem atas , livros e todos os documentos que seriam tão valiosas aos estudiosos contemporâneos.
Muitas buscam relacionar o surgimento de nossa irmandade como sendo uma derivação das grandes escolas filosófio-religiosas do Oriente , que floresceram na Antigüidade . Estas , utilizando as mais variadas disciplinas , buscavam entender a natureza humana , e a justificativa para a sua existência . Mesclando valores religiosos , tais conceitos ficaram conhecidos , no mundo ocidental, como “mistérios” . Estes se relacionavam às questões que iam além do plano físico , transitando em universos espirituais intangíveis àqueles que não apresentavam preparo adequado para esta experiência . Os egípcios , persas e gregos antigos trabalhavam muito bem esta idéia , que transmitiam às suas ricas mitologias. Atualmente podemos considerar tais mistérios como pertencentes à psique humana , relacionada a termos popularmente conhecidos , como ego, consciente e inconsciente coletivos e assim por diante.
Da cultura grega , passando à civilização romana , estes “mistérios” teriam sido incorporados aos collegium fabrorum. Estas eram corporações de arquitetos e construtores que acompanhavam as legiões romanas, reconstruindo o que era destruído e edificando novas obras. Com pesada influência da mitologia dos povos conquistados , estes matemáticos teriam sido os divulgadores dos novos conceitos por grande parte do mundo ocidental. Na Inglaterra , estes construtores chegaram juntamente com a dominação romana , a partir do século V. Posteriormente , ao estruturarem-se as chamadas “guildas medievais” , os “mistérios “ teriam sido herdados pelos chamados maçons operativos , que integrariam tais corporações de ofício, e posteriormente repassados à maçonaria especulativa .
Nesta hipótese , envolvendo as guildas , aprendemos que os segredos da ordem deviam ser preservados devido aos conhecimentos exclusivos da filosofia e arte da construção , que não poderiam vasar para a “concorrência”. Mas , será que apenas esta preocupação arquitetônica justificaria a ênfase observada nos juramentos e posturas da maçonaria especulativa, nos tempos antigos e mantidos ainda hoje?
A resposta é : não.
Apenas estas preocupações relativas às ordens de construtores não explica , de maneira alguma , o que se exige de um IR , em termos de sigilo , fraternidade, postura adequada entre e fora das Ccols . Pior ainda quando mencionamos as pesadas sanções , que incluem desde banimento da sociedade até mutilações físicas ( em sentido metafórico ), a que ficam sujeitos os perjuros .
Outra teoria , que explicaria satisfatoriamente esta preocupação solene com os segredos e outros princípios , é que nossa Ordem teve origem em associações que visavam proteger homens perseguidos por um grande poder , que podia lhes inflingir castigos terríveis, incluindo violentas torturas físicas , perda da liberdade e de propriedades e da própria vida.
Após a Cruzada Albigense , certamente tais associações teriam surgido, principalmente na França, norte da Espanha e da Itália . Totalmente secretas e operando na “marginalidade”, abrigavam os remanescentes do Catarismo e de todas as outras correntes consideradas “heréticas” , pelo poder central ( estado e Igreja ). A partir de meados do século XIII , após o tratado de Meaux ,em 1.229 , tais instituições se alastravam discretamente pelas vilas e aldeões, requerendo de seus integrantes basicamente o que se pede aos maçons na atualidade : manter sigilo absoluto sobre todas as atividades , exercer a mais sincera fraternidade , ser um bom cidadão e bom “associado”e respeitar as regras da irmandade.
Estas agremiações foram evoluindo e , para melhor entendimento dos princípios que defendia , seria preciso elaborar uma base doutrinária para expressar seus objetivos . Para tanto, adotou diversas codificações poderosas , mitos antigos e metáforas de várias correntes filosóficas e religiosas pré existentes. Como simbolismo, nada melhor que utilizar os instrumentos da construção civil para materializar tais conceitos intangíveis, geralmente relacionados à moralidade , retidão, liberdade de pensamento, dentre outros.
Por volta do começo do século XIV , tal movimento receberia um grande fortalecimento , devido a eventos ocorridos envolvendo a mais poderosa ordem religiosa , o rei da França e o papa da época. Nos referimos à Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão de Jerusalém , ou simplesmente Cavaleiros Templários. Fundada em 1.118 , com o objetivo inicial de proteger as rotas de peregrinos cristão que se dirigiam à Jerusalém, acabou se tornando uma rica instituição “bancária”, com verniz religioso-militar . Devido ao seu fenomenal patrimônio financeiro , incluindo inúmeras propriedades e créditos milionários com reis e nobres, foi perseguida a partir do dia 13 de Outubro de 1.307, pelo rei da França Felipe IV , “o belo”, em associação com o papa Clemente V. Quase todos seus membros foram presos e torturados. Foi oficialmente extinta em 1.312 , através da bula papal Vox in Exelsu . O último grão-mestre , Jacques DeMOlay , foi queimado na fogueira em 1.314 . Para muitos estudiosos , os cavaleiros que conseguiram escapar teriam se unido em associações secretas, principalmente na Grã Bretanha , França e Alemanha.
Nossa teoria acrescenta que os cavaleiros sobreviventes teriam reforçado as sociedades que já existiam, que tinham surgido em decorrência das primeiras perseguições aos “hereges cátaros”. A perseguição aos antigos cavaleiros do papa foi severa e sistemática por muitos séculos, o que justificaria ainda mais e a preocupação com o sigilo e proteção de todos IIR, sejam de qual origem fossem.
Com o passar dos séculos , enquanto as sociedades altamente secretas iam se reunindo esporadicamente e cumprindo seu papel de proteção mútua, vários profissionais das diversas áreas eram incorporados , desde que compartilhassem dos mesmos ideais que amalgamavam todos em comuinhão. Ao mesmo tempo , as perseguições foram arrefecendo. A Igreja passava por novas crises , tal como a Reforma, seguida pela Contra Reforma , e osurgimento de estados laicos . Novas vertentes de pensamento, como o Iluminismo e as novas ciências , baseadas na razão e humanismo, começavam a minar paulatinamente as colunas do templo de São Pedro.
Em meados do século XVII , um evento favoreceria a futura publicidade das sociedades secretas. Surgia uma associação de pensadores e cientistas , chamada “Royal Society”, em Londres , por volta de 1.662 . Seu fundador , um professor de astronomia da Universidade de Oxford e geômetra chamado Sir Cristopher Wrein , ficaria conhecido posteriormente como maçom ativo. O ganho de notoriedade de tal entidade, associado a mudança do ambiente político , dentre outros fatores, propiciaram a vinda a público das quatro lojas secretas de Londres, em 17 de Junho de 1.717 , com a fundação da primeira potência maçônica . A maioria dos IIR eram membros da Royal Society .
A partir daí a história passa a ser oficial , com registros históricos formais.
O que existe de real e inconteste, é que em seus primórdios a Maçonaria se caracterizava como uma sociedade que visava proteger homens perseguidos pela simbiose estado e igreja - aqueles que ousaram desafiar o status quo. O risco seria de perder propriedades , a liberdade e a própria vida, sua e de toda família . As vítimas , além de serem consideradas malditas eram condenadas à eterna danação infernal, pela excomunhão . Então, contra esta agressão e intolerância , nada mais óbvio do que fundar uma associação que pregasse justamente o oposto. Isto ocorreu logo após o massacre dos Cátaros , com o surgimento de células de proteção para “alojar” os membros perseguidos , que foram reforçadas pela derrocada dos Templários, e que adotaram diversos símbolos religiosos e da arquitetura antiga para explicar seus paradgmas e princípios.

F- Conclusão


Certamente , a aproximação entre os Cátaros e nossa Sublime Ordem se estabelece de forma direta , em uma relação simples de causa e efeito. Isto porque como desdobramento desta crise , a Igreja resolveu sistematizar o combate àqueles que ousavam afrontar seus ditames . O melhor exemplo desta empreita do clero foi, sem dúvida , a criação do Tribunal do Santo Ofício , ou Santa Inquisição – atualmente chamada de Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, que era capitaneada até pouco tempo pelo cardeal Joseph Ratzinger.
Esta política severa de controle sócio-religioso , baseada na força bruta , no autoritarismo e nos mais cruéis métodos de tortura, gerou reações na sociedade. Certamente “adubou” o terreno para a semeadura dos germes de grupos secretos de homens livres de pensamento , que necessitavam de proteção mútua. Unidos em fraternidade, com segredos mantidos sob pesados juramentos, tais associações foram as ancestrais de muitas comunidades iniciáticas atuais, que preservam muitos destes princípios da época negra de perseguições .
Podemos afirmar que , se o Catarismo não tivesse ocorrido - assim como sua aniquilação sangrenta posterior - talvez a mais perfeita das associações humanas nunca tivesse existido . Foi esta tese , perturbadora e fascinante , que nos levou a pesquisar sobre o assunto . Acreditamos que , se conseguirmos despertar um sutil lampejo de interesse no coração dos leitores sobre este capítulo da História , já estaremos prestando uma respeitosa homenagem aos bravos que tombaram nesta luta imoral , e contribuindo para o enriquecimento cultural de todos .
Por isso que ser um verdadeiro IR não significa simplesmente integrar um clube social, ter um grupo de amigos ou freqüentar uma comunidade religiosa. Esta confusão mental pode ocorrer por desinteresse , falta de orientação adequada ou de conhecimento , principalmente sobre as bases primordiais que sustentaram nossas colunas nas eras passadas . Para estes obreiros nossos juramentos , ritos e lendas podem soar como meras figuras de linguagem, ou alegorias sem sentido .
Concluimos que a derrocada dos Cátaros foi fundamental para o início do processo de formação das sociedades de proteção aos seus integrantes contra as investidas do estado-igreja. Dentre estas , situamos nossa Subl Ordem.
Estudar o processo histórico , que deu origem à Maçonaria , é uma obrigação inquestionável dos IIR que realmente se preocupam em compreender o que significa ser membro da mais perfeita sociedade, em pleno século XXI.

Referências :
1- Camino R. “Dicionário Maçônico “, Madras Editora, São Paulo , 2.006
2- Baignet , M ; Leigh R ; Lincoln H ; “O santo graal e a linhagem sagrada ” Nova Fronteira , 1.997.
3- Miranda H C , “Os cátaros e a heresia cátara” , Editora Lachâtre , 2.002.
4- Quigley C , “Ä evolução das civilizações”, Editora Fundo de Cultura, Rio de Janeiro , 1.961
5- Robinson JJ , “Os segredos perdidos da Maçonaria”, Madras Editora, São Paulo , 2.005 ;
6- MacNulty W K , “Maçonaria: uma jornada por meio do ritual e simbolismo”, Madras Editora , São Paulo , 2.006 ;

Um comentário:

Nilton Luiz Celso disse...

Bastante sucinta, mas suficientemente esclarecedora, de raciocínio e abordagem lógicos e de importantíssimo acréscimo de conhecimento.